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quinta-feira, agosto 13
os dentistas
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domingo, julho 12
férias
Julho é um mês ingrato. Lá, em especial. Chove o tempo todo, faz frio, até.
Quatro crianças naquela casa enorme, uma avó e um avô. E o desafio de entreter todos os confinados. Campeonatos de dama, muito buraco, War de dois. Quando o tempo ajuda e não faz um frio de doer os ossos, o passatempo é outro. Mais ousado e que consiste na construção de incríveis castelos-fortalezas, empreendimento feito com esmero pelos primos engenheiros. Não faltam fossos, pontes e barragens para impedir que as violentas marolas da praia de Barequeçaba não penetrem na érea construída.
Mas no inverno nem sempre o passatempo favorito, a praia, é possível.
É preciso inventar. Encontrar soluções. A questão é que elas sempre aparecem nos cérebros maquiavélicos e criativos de pequenos seres de pouco mais de um metrô, mas cheios de energia.
O futebol na lama era um deles. Não só porque o futebol, em si, na chuva, cheio de poças (pôças e póças, diga-se de passagem) d'água, era muito divertido, como para irrita-La. Aquelas duas pestes a enlouqueciam.
"Eu vou mandar sua filha de volta porque ela não tem mais roupa limpa! Ela não sai da chuva e já jogou futebol com todas as roupas! TODAS! Vai ficar pelada!", ligava Ela desesperada para o filho mais velho, que ria do outro lado da linha como quem se vinga anos depois.
Não agüentava a neta malcriada. Mas aquela criança, no alto dos seus 6, 7, tinha muita energia. E ali era o paraíso, o momento de liberdade total. Ali, com o único que a acompanhava nas sórdidas escapadas de lanterna à noite - e voltavam os dois correndo, apavorados com a própria imaginação e os barulhos dos sapos coaxando. Parceiros de todas as malcriações, cúmplices do melhor da infância. Uma dupla e tanto. Bonny and Clyde do litoral paulista.
Quatro crianças naquela casa enorme, uma avó e um avô. E o desafio de entreter todos os confinados. Campeonatos de dama, muito buraco, War de dois. Quando o tempo ajuda e não faz um frio de doer os ossos, o passatempo é outro. Mais ousado e que consiste na construção de incríveis castelos-fortalezas, empreendimento feito com esmero pelos primos engenheiros. Não faltam fossos, pontes e barragens para impedir que as violentas marolas da praia de Barequeçaba não penetrem na érea construída.
Mas no inverno nem sempre o passatempo favorito, a praia, é possível.
É preciso inventar. Encontrar soluções. A questão é que elas sempre aparecem nos cérebros maquiavélicos e criativos de pequenos seres de pouco mais de um metrô, mas cheios de energia.
O futebol na lama era um deles. Não só porque o futebol, em si, na chuva, cheio de poças (pôças e póças, diga-se de passagem) d'água, era muito divertido, como para irrita-La. Aquelas duas pestes a enlouqueciam.
"Eu vou mandar sua filha de volta porque ela não tem mais roupa limpa! Ela não sai da chuva e já jogou futebol com todas as roupas! TODAS! Vai ficar pelada!", ligava Ela desesperada para o filho mais velho, que ria do outro lado da linha como quem se vinga anos depois.
Não agüentava a neta malcriada. Mas aquela criança, no alto dos seus 6, 7, tinha muita energia. E ali era o paraíso, o momento de liberdade total. Ali, com o único que a acompanhava nas sórdidas escapadas de lanterna à noite - e voltavam os dois correndo, apavorados com a própria imaginação e os barulhos dos sapos coaxando. Parceiros de todas as malcriações, cúmplices do melhor da infância. Uma dupla e tanto. Bonny and Clyde do litoral paulista.
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Temidos pelos avós, quase botaram fogo na casa. A sorte é que o quarto era todo de concreto e não havia muito para pegar fogo. Correram feito doidos para escapar da fumaça. e da bronca . O resultado não foi tão grave. Apenas alguns dias de castigo. Talvez dois dias sem poder jogar futebol - e, com isso, deu tempo para as roupas secarem!
Eram 15 dias assim em julho e outros dois meses inteirinhos no verão. Mas dessa vez com os pais de olho.
Tudo igual. O mesmo ponto de encontro. A mesma expectativa para encontrá-lo. A viagem era longa e a ansiedade deixava os pais enlouquecidos. Para isso, o remédio era viajar de madrugada, com crianças dormindo no carro. Mais tranqüilo.
Lá, as cianças dormiam no puleiro dos anjos (nome irônico). Pegavam no sono rapidinho com um dos pais contanto a história do Velho e o mar ou de Dersu Uzala. Ou enlouqueciam com o tio cantando "No baile da rua aurora" ou contando piadas indecentes e ridículas. Não dormiam, claro. Mas adoravam o turno dele, afinal, eram férias, ora bolas!
Para ela, ele era tudo. O primo mais velho, cúmplices eternos de muitas estripulias.
Ali era seguro. Podia-se tudo. Muita manga, muito peixe com farofa de milho, passeios até a cidade para tomar o-melhor-sorvete-do-mundo. O de coco tinha enormes tiras de coco. Tinha também o de amendoim ou o de creme com calda quente de chocolate. Mas ela pegava o que ele pegava.
Eram 15 dias assim em julho e outros dois meses inteirinhos no verão. Mas dessa vez com os pais de olho.
Tudo igual. O mesmo ponto de encontro. A mesma expectativa para encontrá-lo. A viagem era longa e a ansiedade deixava os pais enlouquecidos. Para isso, o remédio era viajar de madrugada, com crianças dormindo no carro. Mais tranqüilo.
Lá, as cianças dormiam no puleiro dos anjos (nome irônico). Pegavam no sono rapidinho com um dos pais contanto a história do Velho e o mar ou de Dersu Uzala. Ou enlouqueciam com o tio cantando "No baile da rua aurora" ou contando piadas indecentes e ridículas. Não dormiam, claro. Mas adoravam o turno dele, afinal, eram férias, ora bolas!
Para ela, ele era tudo. O primo mais velho, cúmplices eternos de muitas estripulias.
Ali era seguro. Podia-se tudo. Muita manga, muito peixe com farofa de milho, passeios até a cidade para tomar o-melhor-sorvete-do-mundo. O de coco tinha enormes tiras de coco. Tinha também o de amendoim ou o de creme com calda quente de chocolate. Mas ela pegava o que ele pegava.
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quarta-feira, maio 13
Campinas 2
Ela teve quatro crianças. Não tinha nada contra elas. Ela só não gostava do conceito "criança", que dirá no plural. E, diga-se de passagem, eram quatro beeem especiais!
Para alívio dos meus pais, desde pirralha, passava boa parte das férias em outro estado, bem longe, para eles poderem se curtir um pouco.
Passava com Ela.
Talvez eu já soubesse desse certo desprezo/medo que ela tinha por crianças. Instinto, sei lá. Mas o estranhamento era mútuo. Talvez a distância entre Campinas e Rio de Janeiro também fosse um problema entre nós. Só nos víamos uma, duas vezes por ano, confinadas numa casa por um mês inteirinho. Uma olhando para a outra.
A casa era ótima. Não lembro com detalhes, mas lembro que, no quintal, lá estava ele. Sim, para mim era um ele. Pela forte influência paulista na minha vida, nunca tomei banho de mangueira, mas de esguicho. E ele era o responsável pela minha maior diversão. E tormento para Ela.
Tinha 3, 4 anos, no máximo. Mas, já naquela idade de micro-ser dei muita dor de cabeça pra muita gente. Mas em especial pra Ela. Não comia com ela, não tomava banho com ela. Era preciso uma minha tia e uma dela amiga pr'eu poder tomar banho. "Você vai me enlouquecer, menina!, sabe disso? Você vai me enlouquecer!", gritava pela casa. Com as duas eu me fartava. Adorava. Abria a torneira, esperava calmamente a água sair forte e colocava o esguicho em cima da cabeça. E tomava aquele banho.
E assim nasceu a nossa história de amor. Início de muitas férias juntas. De muitas farras, esguichos e cabelos brancos.
Para alívio dos meus pais, desde pirralha, passava boa parte das férias em outro estado, bem longe, para eles poderem se curtir um pouco.
Passava com Ela.
Talvez eu já soubesse desse certo desprezo/medo que ela tinha por crianças. Instinto, sei lá. Mas o estranhamento era mútuo. Talvez a distância entre Campinas e Rio de Janeiro também fosse um problema entre nós. Só nos víamos uma, duas vezes por ano, confinadas numa casa por um mês inteirinho. Uma olhando para a outra.
A casa era ótima. Não lembro com detalhes, mas lembro que, no quintal, lá estava ele. Sim, para mim era um ele. Pela forte influência paulista na minha vida, nunca tomei banho de mangueira, mas de esguicho. E ele era o responsável pela minha maior diversão. E tormento para Ela.
Tinha 3, 4 anos, no máximo. Mas, já naquela idade de micro-ser dei muita dor de cabeça pra muita gente. Mas em especial pra Ela. Não comia com ela, não tomava banho com ela. Era preciso uma minha tia e uma dela amiga pr'eu poder tomar banho. "Você vai me enlouquecer, menina!, sabe disso? Você vai me enlouquecer!", gritava pela casa. Com as duas eu me fartava. Adorava. Abria a torneira, esperava calmamente a água sair forte e colocava o esguicho em cima da cabeça. E tomava aquele banho.
E assim nasceu a nossa história de amor. Início de muitas férias juntas. De muitas farras, esguichos e cabelos brancos.
Para dona Aparecida.
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Campinas 1
"Gira, gira, gira o botão. Gira, gira, gira, gira, gira! Gira logo, vai!"
"isso não vai dar certo, vai dar merda e ela vai ficar com muita raiva".
gira, gira, gira, gira, gira, gira, gira, gira.
E ele não parava de falar, bem no meu ouvido, como um diabinho, me tentando. É. Ele não tem coragem. Mas ele sabe que eu, sim. Eu era o pontapé inicial, eu era a primeira marcha que desencadeava todas as besteiras.
Foram alguns segundos, mas eu estava relutante. Não precisava nem me esforçar muito para girá-lo. Estávamos estrategicamente posicionados, escondidos e de cara com O botão.
Campinas quando se tem 5, 6 anos parece cidadezinha dessas pacatas, tranqüilas onde o tempo passa de vagar. Apesar da casa, com jardim e tudo, do primo favorito, da tia incrível e das brincadeiras sem parar, duas pestes juntas não poderia dar certo por muito tempo. A merda era inevitável. Era estado E duas crianças internacionalmente conhecidas por serem uns amores, mas também diabinhas, numa casa - simpática, com jardim e tudo -, com uma tia gravidíssima, não podia dar certo. Em algum momento ia desandar. Era estado e(i)minente constante.
Até que demorou esse momento. Demoramos para desandar.
Era preciso acontecer, entende? Fazia parte das férias, do contexto. Fazia parte do nosso caráter, do nosso aprendizado. Não, não havia, ali, uma alternativa.
Ela deu uma bronca daquelas, diga-se. E ficou dois dias sem falar com a gente. Ficamos de castigo (e precisava?). E eu, senti a culpa. Culpa por ter girado o botão. Culpa por ter, mais uma vez, me influenciado. Por ter decepcionado a tia que eu tanto amava. Mas, arrependimento? Hum, sei não...
"isso não vai dar certo, vai dar merda e ela vai ficar com muita raiva".
gira, gira, gira, gira, gira, gira, gira, gira.
E ele não parava de falar, bem no meu ouvido, como um diabinho, me tentando. É. Ele não tem coragem. Mas ele sabe que eu, sim. Eu era o pontapé inicial, eu era a primeira marcha que desencadeava todas as besteiras.
Foram alguns segundos, mas eu estava relutante. Não precisava nem me esforçar muito para girá-lo. Estávamos estrategicamente posicionados, escondidos e de cara com O botão.
Campinas quando se tem 5, 6 anos parece cidadezinha dessas pacatas, tranqüilas onde o tempo passa de vagar. Apesar da casa, com jardim e tudo, do primo favorito, da tia incrível e das brincadeiras sem parar, duas pestes juntas não poderia dar certo por muito tempo. A merda era inevitável. Era estado E duas crianças internacionalmente conhecidas por serem uns amores, mas também diabinhas, numa casa - simpática, com jardim e tudo -, com uma tia gravidíssima, não podia dar certo. Em algum momento ia desandar. Era estado e(i)minente constante.
Até que demorou esse momento. Demoramos para desandar.
Era preciso acontecer, entende? Fazia parte das férias, do contexto. Fazia parte do nosso caráter, do nosso aprendizado. Não, não havia, ali, uma alternativa.
Ela deu uma bronca daquelas, diga-se. E ficou dois dias sem falar com a gente. Ficamos de castigo (e precisava?). E eu, senti a culpa. Culpa por ter girado o botão. Culpa por ter, mais uma vez, me influenciado. Por ter decepcionado a tia que eu tanto amava. Mas, arrependimento? Hum, sei não...
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